quarta-feira, 6 de maio de 2015

Uma nova forma de expressão.

Quando escolhi o tema “Novas formas de vida pública: cidadania, participação política e protesto”, em Cibercultura, a primeira coisa de que me lembrei foi do ataque ao jornal francês Charlie Hebdo. Porquê? Porque o que se passou naquele dia é um bom exemplo de como a internet mudou a nossa forma de exercer os nossos direitos (cidadania), de participar politicamente (influenciando o exercício do poder por parte de quem governa) e de protestar (online e offline).

No trabalho intitulado “Comunidades virtuais: activismo e militância num novo espaço público”, Inês Amaral escreve que “o ciberespaço assume quatro características distintas de qualquer outro meio de comunicação: desterritorialidade, imaterialidade, tempo-real e interactividade”.

Isto significa que o ciberespaço, em que se desenvolve a cibercultura, não tem um território geográfico, um espaço físico, em que as pessoas se encontram – daí a desterritorialidade. O ciberespaço permite que as pessoas de todo o planeta comuniquem entre si em tempo real, e produzam e recebam informação sem precisarem de se encontrar num espaço físico. Há uma espécie de eliminação do espaço e do tempo.

No mesmo trabalho, Inês Amaral reflecte que a Cultura de Massas também depende da tecnologia e também envolve comunicação. Mas, neste caso, a tecnologia (das televisões, da rádio) só funciona num sentido, do emissor para o receptor e é igual para todos os receptores, apesar de estes formarem grupos heterogéneos. E escreve: “O novo cenário digital remete, necessariamente, para a individualização da comunicação. Do modelo tradicional de comunicação vertical e unilateral, passamos à comunicação horizontal e de dimensão bilateral, interactiva”.

Um bom exemplo do que que são o ciberespaço e a cibercultura são, como escrevi atrás, os acontecimentos que se seguiram ao ataque terrorista em França. Um ou dois minutos depois do atentado no jornal francês, os franceses, os portugueses, os alemães, os argentinos, os brasileiros, os americanos, tiveram acesso a essa informação e, pouco depois, já circulava um filme dos acontecimentos feito por um cidadão anónimo, que podia ser qualquer um de nós.


A partir desse momento, todas as pessoas com acesso à internet em todo o mundo puderam acompanhar o que se estava a passar em Paris quase em tempo real.

Mas não se limitaram a receber a informação. Apesar de o atentado ter acontecido a muitos milhares de quilómetros de distância de Portugal, pouco depois a fotografia de perfil de muitos cidadãos de todo o mundo era a um rectângulo negro com a frase “Je Suis Charlie”, que se tornou um símbolo de defesa dos direitos humanos (à vida e à liberdade de expressão) e, ao mesmo tempo, de protesto (contra quem violou aqueles direitos).

Ao mudar o seu perfil e ao partilhar as caricaturas que centenas de artistas desenharam no próprio dia, os cidadãos estavam a protestar, mas também a participar politicamente, a exigir aos políticos que agissem de forme firme contra o que tinha acontecido.

Outro aspecto curioso é que o protesto não se ficou por esse novo espaço público, que é o ciberespaço. Os protestos online prosseguiram offline –nessa mesma noite e no dia seguinte as pessoas, sem se conhecerem, juntaram-se em manifestações de protesto contra o terrorismo, em cidades de toda a Europa e levaram os políticos a fazer o mesmo.



 Essas mesmas manifestações offline regressaram quase imediatamente ao espaço online, porque os cidadãos partilharam, quase em tempo real, outra vez, os filmes e as fotografias dos protestos através do Facebook, do Twitter, do Instagram e de outras redes sociais.

Sem comentários:

Enviar um comentário